CCS » R e v i s t a    E T C Nº 0

Em busca de uma percepção

diferenciada Sobre a cultura

 

Glauria Janaina dos Santos
Professora do Curso Técnico na área de Turismo e Hospitalidade e do Curso Superior em Administração com habilitação em Hotelaria do CEFET-BA, Especialista em Psicopegagogia pela UFBA, Psicodramatista pela SOPSBA, Bacharel em Turismo pela FACTUR. e-mail: glauria@cefetba.br

 

Resumo: Este artigo aborda um tema muito comentado na atualidade: a cultura. Após uma explicação sobre as suas características e a sua dinâmica, o texto propõe que a cultura brasileira seja percebida, não como tendo necessidade de Resgate e sim de Valorização. Mediante a descrição de ambos os conceitos, visamos uma possibilidade de ampliação da percepção sobre a sua dinâmica e da importância da educação como aliada nesse processo.

Palavras - Chave: Cultura; Educação; Valorização Cultural; Identidade Cultural.

 





Introdução

As diversas manifestações culturais que hoje conhecemos surgiram em resposta a muitos dos anseios e necessidades das comunidades ao longo da história. Elas têm um importante papel a cumprir tanto individualmente - ao propiciar, por exemplo, a representação e a elaboração desses anseios e ao transmitir conhecimentos e valores - , quanto socialmente.
A cultura, então, será analisada sob uma perspectiva dinâmica e cíclica, enfocando os aspectos que auxiliem a compreensão desse fenômeno complexo e polissêmico.
Com base nessas reflexões, serão analisados os conceitos de resgate e valorização, buscando uma percepção mais ampliada a partir da utilização de conceitos mais adequados que facilitem uma ação de educação significativa.


Cultura: destacando suas características e sua dinâmica

A Cultura é um processo coletivo e não individual. É inerente aos sujeitos de qualquer localidade, independente de quaisquer tipos de segmentação. Para compreendermos esse processo, faz-se necessário visualizar os componentes que o colocam em evidência. Assim, destacamos, a partir do trabalho de MELO (1986), algumas características da cultura, como aquela de ser simbólica por possuir um conjunto de significados sistematizados e que podem ser transmitidos por aquele que a utiliza _ seja o emissor seja o receptor _; “a cultura é como se fosse uma memória coletiva que reconstroi toda experiência dos grupos ou das sociedades” (MELO, 1986).

Além disso, a cultura tem a propriedade de ser social, por ser um processo de interação entre os sujeitos, onde existe a influência de valores:


“antes de fazer seu primeiro ato consciente, ao que tudo indica, o indivíduo já tem uma conduta padronizada que a cultura interiorizada lhe proporciona e que modela, inclusive seus processos psicológicos e orgânicos”(MELO, 1986).


Assim, cada sujeito de uma comunidade tem seu papel e seus interesses dentro da cultura.

Consideramos, também, a cultura como um processo dinâmico e estável, aparentemente paradoxal, mas que efetivamente não o é. Ela é dinâmica por apresentar mobilidade e mudanças; as várias mudanças que sofre, algumas lentas, imperceptíveis frutos da sua natureza de aprendizagem, e outras mais abruptas. E é estável porque registra um tempo, uma “tradição e uma institucionalização de padrões de comportamento”( MELO, 1986).

Uma outra característica é a de ser seletiva. Essa propriedade, agregada às demais, reforça o processo contínuo de reformulações.

“Esse processo de reformulação se acentua na sucessão das gerações. É fácil perceber que nesse processo de transmissão de padrões de comportamento alguns valores são relegados ao esquecimento e outros novos são integrados. Nesse processo parece existir uma seleção de natural de padrões”(MELO, 1986).

Neste contexto, tudo o que é produzido pelo homem é cultura. Assim, por sermos todos sujeitos construtores de cultura, é que ela possui a característica de ser universal, por ser ampla e atingir a todos. Verificamos que não existe sujeito sem cultura. Desta forma, por mais longínquo que possa estar, ele está vivenciando processos culturais. Esses processos culturais vão se diferenciando a partir de uma segmentação regional, quando então ela passa à característica de ser regional, quando os sujeitos vão diferenciando seus papéis e seus interesses, construindo padrões regionais, que atendam as suas necessidades específicas do seu contexto regional.

Por fim, apresentamos como característica aquela de ser determinante e determinada. Iremos considerá-la como determinante quando marca/determina os padrões de comportamento, quando o sujeito é suscitado à conformação dos hábitos e costumes, independentemente de sua individualidade. Porém, do mesmo modo, a cultura muda e se transforma, ao longo do tempo, para atender as novas necessidades humanas. Essas modificações podem ter suas raízes variadas, com a participação humana. Podem ser “em modificações sociais, tais como revoluções; invasões; ainda podemos considerar o caso das modificações demográficas com o crescimento ou diminuição do número de habitantes” (MELO, 1986), além da própria interação que cada sujeito realiza com elementos de outras culturas. Assim, ela é determinada pelos processos interativos de cada geração.

Todas essas características devem ser percebidas como pertencentes a um mesmo ciclo. Cada parte descrita representa o movimento dos elementos culturais e, assim, compõe uma dinâmica/ciclo. Toda cultura tem uma dinâmica própria de transformação e podemos afirmar que não existe cultura estática. A dinâmica da cultura não é apenas por referir-se ao processo de mudanças, mas por possuir um movimento que contém a essência, a unidade e a totalidade.

Essa dinâmica reforça a necessidade de valorizarmos os nossos elementos culturais como únicos, não como melhores ou piores, e, sim, como singulares. É importante salientar que não existe uma cultura superior à outra. Todas as culturas possuem suas peculiaridades e as diferenças, por mais extravagantes que possam parecer, devem ser compreendidas a partir de cada contexto.

Esses dados nos remetem a exemplos como as manifestações folclóricas, muitas existentes em tempos passados. Hoje, algumas já não existem, pois elas obedeceram a um ciclo ditado a partir das, já apresentadas, características da cultura. Elas tiveram o seu apogeu em determinado tempo, com o contato com novos elementos e com as novas necessidades dos sujeitos dessa localidade. Outros elementos entraram em ascensão, e essa manifestação entrou na fase que denominaremos como adormecimento, pois ela está registrada no patrimônio simbólico desses sujeitos e não mortas, aniquiladas. A qualquer momento em que os mesmos tiverem novamente necessidade dessa manifestação, ela acordará e voltará à cena. Neste momento podendo estar imbuída de novos valores, pois não serão os sujeitos do passado que estarão presentes e, sim, o simbólico do passado em sujeitos atuais e presentes, que imprimiram seus “jeitos”, ou seja, sua forma diferenciada de apresentar a manifestação. Caso a comunidade não sinta necessidade, essa manifestação continuará adormecida. Para que possamos manter acordadas as diversas manifestações, é necessária a atuação eficaz da educação de base, onde esses elementos culturais são reforçados e vivenciados a cada dia.

Desta forma, somente conseguiremos imprimir transformações “mais conscientes”, ou seja, menos danosas, quando por meio da Educação, a comunidade valorizar e estiver mais ciente de todos os elementos culturais que possui. Assim, não permitirá que se adormeçam tão rapidamente suas danças, cantos, entre outros elementos.

O processo de mudança social, principalmente nas zonas rurais, devido ao despovoamento, é também um fator preponderante dessas transformações, uma vez que a cultura se fragmenta com o desaparecimento da população autóctone.

Essa constatação de que não existe sujeito sem cultura deve provocar uma discussão fundamental para a construção dessa percepção diferenciada, pois reforça a responsabilidade na valorização dos seus elementos culturais e a liberdade em estar sempre criando novos sentidos, recriando outros, mediante os intercâmbios e as novas situações de vida.

É importante salientar que a cultura é um processo antes mesmo de se tornar um produto.



Educação: identificando o seu papel

O Brasil necessita desenvolver um processo educacional onde as pessoas estabeleçam uma relação diferenciada com a cultura, onde possam ampliar a sua percepção e reconhecer a cultura, não como algo longe, externo, ou simplesmente do outro, mas como fruto do seu movimento e da sua interação com o meio e com os outros membros da sua comunidade. Grande parte desse distanciamento se deve à forma distorcida e distanciada na nossa formação educacional de base.

Uma porção desse fracasso se instaura na negação dos valores culturais trazidos pelas outras etnias. A exclusão gera turbulência e ausência de unidade. O sistema educacional atual não valoriza a cultura regional, e as minorias são estimuladas a amoldar sua cultura à cultura dominante. Em função disso, as classes sociais perdem, inteiramente, o espírito regional abruptamente, sem a natural transformação que ocorreria com o contato com outros hábitos.

Hoje, com a era das novas tecnologias é impossível pensarmos tanto na não utilização do computador, celular, tvs a cabo, ou, mesmo, de que elas sejam vilãs, que retiram o encantamento dos hábitos e costumes praticados antes do contato com elas. Infelizmente, ocorre que os estudantes aprendem, durante o período escolar, mais sobre negócios e computadores em vez de arte e história. Dessa forma, o conhecimento de temas culturais está diminuindo. É papel da Educação registrar, marcar e demarcar a importância de todos os elementos culturais para cada membro da comunidade, fortalecendo e recriando o interesse.

É essencial frisar que, quando o sujeito tem consciência de quais são os seus elementos culturais, ele os mantém sempre em evidência, e, por mais contato que venha ter com outros tantos elementos diferentes, essa relação não será mais subalterna ou desigual e, sim, de respeito, reconhecimento e dignidade por já possuir um dado importante, o reconhecimento de si e do seu valor.

Uma comunidade consciente dos valores que possui não perde tempo em se preocupar com o que pode acontecer. Ela simplesmente saboreia, registra, participa, ou seja, VIVE. E vivendo a comunidade dança, canta, rodopia, seja o samba de roda, o maracatu, a congada entre outras tantas manifestações, fortalecendo-se a cada dia.

Todavia, o reconhecimento de que a cultura é cíclica _ que passa a cada dia por transformações, que a cada novo elemento com que entra em contato pode ser incorporado ou não àquela comunidade, a partir do desejo da própria _ deveria nos aliviar da pressão que a cada dia cresce e que estimula a utilização da palavra resgate, pois o movimento cíclico/dinâmico amplia a nossa percepção e nos assegura que nada morre ou está morto, mas que apenas adormeceu ou está adormecendo. De fato, o interesse especial por culturas fossilizadas, devido ao seu valor pitoresco, e pelo contraste com a cultura dos próprios turistas, potencializa o risco de as culturas do amanhã se tornarem um tanto artificiais e carentes de dinamismo.

Contudo, é importante salientar que é na cultura que se encontra a alegria, que o colorido se efetiva, e que se destaca e diferencia uma comunidade. E, junto com os fatores econômico e social, a cultura forma o tripé sobre o qual se apóia a cidadania de um povo.

A ação governamental, nesse processo de ampliação da percepção, é importante para efetivamente estimular a participação popular, por intermédio tanto de políticas culturais quanto, prioritariamente, por investimentos na Educação.


“O contexto contemporâneo aponta para uma sociedade da informação, o que significa uma maior intensidade da comunicação e um aumento no ritmo das transformações, e, consequentemente, os contextos social, político e cultural têm novas configurações, gerando novas subjetividades e atingindo também o foco mediador da atividade educativa: o conhecimento”(SERPA,2000).

E, nesse contexto, surge a necessidade de os conteúdos programáticos contemplarem os aspectos regionais de cada sujeito aprendente, ou seja, a Geografia deve elencar todos os aspectos do ambiente desse sujeito, a História reforçar os fatos marcantes desse contexto social, bem como os elementos culturais devem ser reafirmados a cada momento. Esse é o papel da educação, e essa é a forma dos elementos culturais se manterem presentes no cotidiano.



Valorização, sim – Resgate, não

Ultimamente, quando ouvimos,falar sobre cultura, a ênfase dada ao assunto é a de Resgatar o folclore, as manifestações, o samba, a leitura ... enfim a cultura. Então, eis a questão. Por que resgate e o que é resgate?

Segundo o dicionário Aurélio, resgate pode ser definido como:

“S. m.

1. Ato ou efeito de resgatar (-se).

2. A quantia necessária ao resgate de escravo, prisioneiro, dívida, etc.

3. Libertação, livramento.

4.Salvamento (HOLANDA)

Se considerarmos um objeto ou pessoa que está preso sem articulação ou um ser inanimado, é perfeitamente cabível a utilização do termo. Mas quando o assunto é cultura, é difícil conceber a utilização do resgate ou do salvamento, pois a cultura é dinâmica e não existe em situações abstratas, mas em sujeitos ativos, homens e mulheres reais e concretos, que possuem diferentes “locus” e que vivem em interação constante entre si, sendo os principais agentes culturais. O homem, mesmo sem consciência disso, produz e reproduz cultura diariamente, por meio da sua interação com os outros. Assim, tanto o lavrador quanto o Procurador da República são agentes culturais.

Portanto, se cultura é um complexo conjunto que inclui conhecimentos, crenças, arte, moral, lei, costumes, entre outras aptidões e hábitos, adquiridos pelo sujeito como membro de uma comunidade, como é que aplicaremos o resgate, sendo estes elementos vivos e interativos? Quem acredita em resgate visa cristalizar os elementos culturais em determinado tempo e impedir que o ciclo natural de transformação se estabeleça. Na verdade o que precisa ser feito é entender a dinâmica da cultura e o seu ciclo. Então, o que se faz necessário é valorizar.

Valorizar significa:

“[De valor + -izar.]

V. t. d.

1. Dar valor ou valores a.

2. Aumentar o valor ou o préstimo de: 2 V. p.

3. Aumentar de valor: 2

[Cf. valorar.]”(HOLANDA)

Esse conceito nos permite interagir com elementos que estão vivos, como as danças , os cantos, cheios de cor, calor e que expressam a essência de uma comunidade. E, principalmente, nos ajuda a entender o processo dinâmico e interativo, sem pretendermos fossializá-los ou mesmo colocá-los em redomas de vidro.

A dinâmica cultural é um processo de reformulação, onde, a cada inserção de novos elementos, outros adormecem. Não se trata de uma seleção racional, mas de um processo subjetivo de escolhas não necessariamente conscientes e desejadas. Mesmo interagindo com elementos de outras culturas ditos dominantes, as manifestações, a dança, o artesanato não necessitam ser resgatados, pois nunca morreram. Eles têm necessidade de ser valorizados para que não adormeçam.

A população em conjunto com o território constituem um sistema físico e social, como uma verdadeira espécie de ecossistema cultural. Por sua vez, o resultado dessa inter-relação população/meio físico vem a se constituir a herança, o acervo cultural, que qualifica e distingue uma sociedade. Este acervo cultural deve ser transmitido pela educação, de maneira a permitir que esse membro da população possa integrar-se ao ecossistema cultural, estabelecendo uma relação de equilíbrio. A Educação é a comunicação ativa da herança, das experiências da sociedade local (acervo cultural). É quem corrobora o processo de valorização.


Considerações Finais

A participação variada de povos na formação cultural brasileira resultou em uma diversidade rica, singular e sintetizou-se em um povo amistoso, receptivo, alegre que no cotidiano expressa a sua mistura étnica. Entretanto, há um contraponto: a falta de um olhar mais amoroso para essa grande mistura. Vemos grupos étnicos querendo se auto afirmar isolados, num momento em que não podemos mais nos dividir. Formamos agora uma nova etnia, a dos “misturados”. A identidade é um processo que vai se formando em relação ao outro. A nossa identidade está sendo construída, com base nas várias possibilidades de identidades, ou seja, não mais uma identidade cultural, mas identidades culturais. Ao berço índio, português e negro somam-se tantas etnias e nacionalidades em convivência interativa de crenças, costumes e artes, formando um patrimônio simbólico expressivo e original.

Cada comunidade tem seu próprio “modelo ideal” de cultura, que na dinâmica natural se modifica a partir dos contatos estabelecidos dentro e fora da própria comunidade e sempre com o consentimento da mesma. Nada se modifica sem a sua autorização/permissão. Mesmo nos momentos em que vemos hábitos externos serem incorporados sem o devido apuro e maturação, subjetivamente, foi permitida essa mudança. Na atual aldeia global, a demanda pelos bens culturais cresceu demasiadamente. Num mundo sem barreiras, a cultura de um povo é o patrimônio simbólico mais importante da Nação.

Tendo em vista essas considerações, devemos ampliar nossa percepção para deixarmos de pensar a cultura como sendo um quadradinho no meio do lago, afundando e gritando: “Socorro, socorro, socorro”, e sim, como algo dinâmico, fruto da interação dos sujeitos que estão agrupados em determinadas localidades. É importante frisar que a cultura não está afundando e nunca afundará. Ela apenas passa por transformações e obedece a um ciclo, onde, em momentos, alguns elementos se sobressaem e, em outros, podem estar adormecidos, nunca mortos.


 

Referências Bibliográficas

HOLANDA, Aurélio Buarque. Dicionário, 2002.

MELO, Luiz Gonzaga de. Antropologia Cultural. São Paulo: Vozes, 1986.

NETO, Olímpio Bonald. Cultura, Turismo e Tempo. Fruição do Intangível. São Paulo: José Olympio, 1980.

SERPA, Luiz Felippe Perret. O papel do professor. Salvador: Correio da Bahia, 27/11/2000.